Thursday, February 23, 2012

Reformas: uma análise muito simplista.

Já que o meu blog tem andado relativamente parado, hoje decidi escrever um pouco com uma análise simplista sobre reformas.
A razão pela qual acho as reformas um tópico interessante e porque, durante o ultimo mês, já devo ter tido umas 3 discussões sobre o assunto com alguns amigos (de Portugal) e todos eles demonstraram um profundo mau estar com "quão mal tratamos os nossos idosos"..

Ainda ontem, um amigo comentava, triste, no Facebook:
"Esta reportagem na RTP1 mostra a triste realidade deste miserável país.... ninguém ajuda ninguém, tristes e sós, estão a maior parte sós".

O comentário era sobre os idosos do nosso pais, que em grande parte são "deixados ao abandono" e sem qualquer apoio.

Sem duvida que me incomoda saber que há pessoas idosas nessa situação mas acho que e bem mais importante refletir sobre a razão pela qual estão nessa situação, tão abandonadas, isoladas e sem dinheiro (ou com reformas miseráveis). Afinal, só assim podemos resolver o problema.

E o meu comentário (que muitos de vos de certeza acharão cru e duro) foi perguntar o que fizeram esses idosos pelo pais (durante a sua vida activa) e quanto descontaram eles?

E claro que, tal como a maior parte dos meus comentários, isto faz-me parecer uma besta. Afinal, só uma besta iria falar mal de alguém que esta a passar por dificuldades. Mas, na verdade, acho que essa e a pergunta que temos de realmente fazer.

E a razão e deveras simples. E que, no nosso pais (e, no fundo, em qualquer outro pais Socialista), somos habituados a não tomar responsabilidade por nos mesmos e crescemos com a ideia de que "o Estado tem obrigação de tratar de nos".

E isso e tudo muito simples quando não se pensa no efeito que isso tem (e nem sequer se isso e um modelo sustentável).
Outra razão pela qual esta ideia e muito atrativa e  pelo simples facto de que, quando o Estado tem obrigações, então podemos sempre culpar alguém pelos nossos infortúnios :o).

Eu próprio cheguei aos Estados Unidos iludido, achando que o governo tem obrigação de tratar de nos.
Mas tive a sorte de um dia me terem perguntado se queria aderir a um 401k?

Como não sabia o que isso era perguntei, e disseram-me, de forma muito simplista, que era um fundo para a minha reforma.
Perguntei então "mas o Governo não e suposto dar-nos uma reforma quando nos reformamos?" e o meu amigo respondeu que "sim, mas isso não te vai sustentar". E isso permitiu-me abrir os olhos.

E que, eu também pensava que quando se desconta um valor, que o governo tinha obrigação de nos dar de volta esse valor (ou perto) quando nos reformamos. O que eu nunca tinha pensado era: como raio e que isso e possível?

Passo então a explicar com um exemplo muitoooo simplista (que surgiu em conversa com os meus amigos).
Imaginemos que declaramos um salário mínimo em Portugal (cerca de 450 euros mensais):
- desses 450 euros mensais, pagamos cerca de 11% para a Segurança Social (49.5 euros por mês, embora seja mais simples se arredondarmos para 50);
- assumindo que pagamos esse valor durante toda a nossa vida activa (novamente, assumindo que se trabalha, em media, uns 45 anos - e mesmo isso sendo generoso, já que muita gente nem isso trabalha), significa que vamos dar ao Governo, durante todos esses anos, um total de 27000 euros;
- imaginando que a esperança media de vida são 85 anos, podemos contar com cerca de 20 anos de reforma;
- assim sendo, vamos dividir o valor que demos ao Governo durante os 45 anos e fazer as contas para quanto e que o Governo nos teria de dar de volta durante 20 anos. Com algumas contas simples, rapidamente concluímos que o Governo teria de dar de volta cerca de 112.5 euros por mês;

Como disse, isto e uma analise deveras simplista (mas também generosa, já que neste exemplo estou a fazer uma estimativa de alguém descontar um "salário mínimo" de um valor fixo durante 45 anos e isso e irrealista, já que só "recentemente" o salário mínimo atingiu os "450" euros).

E claro que também podem argumentar que o "Governo tem obrigação de investir esse dinheiro em fundos seguros para gerar mais dinheiro", mas então pergunto "e quanto dinheiro e que se consegue gerar (sem grande risco) com 27000 euros?". E a resposta e: muito pouco! Especialmente se tomarmos em conta que esse dinheiro todo não esteve a render durante os 45 anos, mas sim pequenas porções que foram crescendo progressivamente.

Mesmo se assumirmos que possamos gerar o dobro do dinheiro, isto significa que o Estado nos teria de dar de volta cerca de 225 euros por mês.

E esta analise nem sequer esta a contar com o facto do dinheiro pago a Segurança Social ser também usado para o fundo de desemprego (e que o possamos utilizar se ficarmos desempregados durante a nossa vida activa) e que não e um sistema justo onde recebemos de volta por inteiro o dinheiro que "emprestamos" ao  Estado (e sim dividido por TODA a população, em especial por quem menos tem [quer seja porque precisa mesmo ou apenas e só porque recebe]).

E, pela  mesma análise, e muito fácil concluir que mesmo alguém que declare, digamos, uns 1250 euros mensais, também não deve achar que tem direito a coisa alguma (ou que é classe média e que e graças a si que o país se move). É que, pela mesma análise simplista, rapidamente concluímos que um salário desses apenas "tem direito" a cerca de 312.5 euros por mês. (e ainda anda a maioria da população a perseguir "os ricos", como se eles fossem o que está mal com o nosso país).

Já sai um pouco do tópico principal deste post mas suponho que, a esta altura, já perceberam onde estou a chegar, certo?
E que este esquema da Segurança Social e uma grande TRETA e da-nos a ilusão de que "o Estado vai tomar conta de nos" quando, na realidade, só nos vai fazer sofrer uma grande desilusão na altura da reforma.

A única forma de ser sustentável é se a economia for SEMPRE estável (com um crescimento económico constante) e se a população continuar a crescer exponencialmente.

Lembrem-se SEMPRE disto: pode parecer gratuito mas alguém está a pagar a conta. E podem não se preocupar com isto mas garanto-vos que, a não ser que sejam um parasita para a sociedade, um dia isto vai-vos tocar a vós também.

E, na minha opinião, o maior problema é que, embora a maior parte das pessoas até se possa preocupar com os idosos, a verdade e que só se preocupam REALMENTE, quando chega a altura dos seus próprios pais se reformarem OU quando chegam elas mesmas à terceira idade.

Aconselho-vos portanto a reflectir sobre isto e pensarem um pouco: será que não e altura de fazer uma poupança reforma?

Eu tive a sorte de perceber isto ainda antes dos 30. Espero que isto ajude alguém a chegar à idade da reforma com paz e sossego e desfrutar do merecido descanso (caso realmente o mereçam).

Em suma, pena mesmo tenho eu de quem percebeu isto desde cedo, investiu na sua reforma (no sector privado) e, por um qualquer desfalque económico ou por instabilidade económica perdeu todas as suas poupanças. Desses sim, e que eu tenho realmente pena. Os outros, esses apenas lamento.

3 comments:

  1. Muito bom post, aliás subscrevo-o quase por inteiro. O problema está nas mentalidades, a nossa geração tem de cair em si e perceber que este estado social não tem futuro, isto funcionava muito bem quando 90% da população trabalhava e as pessoas morriam aos 70 anos, agora é algo bem diferente.

    Não sei se conheces o programa 'Olhos-nos-Olhos', cujo orador é o Medina Carreira, ele lá está farto de dizer que no futuro as reformas terão um valor simbólico, pois para quem agarrar numa calculadora facilmente chega aos valores que chegaste sendo generoso.

    Acho que a principal mensagem é mesmo se ganharem X não gastem X+1, mas X-1 e vão aplicando esse 1 em poupanças.

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    1. Nao conheco o programa mas ja tenho visto o gajo falar em algumas reportagens.
      E um problema cultural do caracas!

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  2. Excelente post. O problema é que se alguém diz isto em voz alta em Portugal, a maior parte das pessoas fica a olhar para nós com cara de parvo...

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