Ja ando para escrever um comentario sobre as agencias de rating as teorias de conspiracao a volta delas ha alguns dias...mas optei por me limitar a discutir o assunto com alguns amigos e conhecidos pelo Facebook. Dessas discussoes, so consigo concluir uma coisa: ou eu sou uma grande besta (o que e possivel ;o)), ou as pessoas estao completamente cegas e querem e sangue e alguem a quem apontar o dedo.
Se andam pelo facebook (e,
provavelmente nao so caso vivam em Portugal - ja que mais facilmente tem acesso a conversas de rua / trabalho com Portugueses do que eu aqui), ja devem ter reparado no movimento geral contra as agencias de rating, desde que a
Moody's nos deu um rating de "Junk".
Para comecar, estou parvo. Como e possivel que os meus compatriotas fiquem tao ofendidos e que comecem a surgir, por todo o lado, movimentos anti-Moody's (e anti outras agencias de rating), como se a culpa da nossa situacao ter sido provocada por eles.
O que eu tenho a dizer e que, embora eles tenham, sem qualquer duvida, ajudado a piorar a situacao (o que era, provavelmente, desnecessario fazer ate se analisar os resultados das medidas do nosso governo [o qual, na minha opiniao, PARA JA, esta a fazer um bom trabalho]), nao faz qualquer sentido que estejamos agora a olhar para estas agencias, e a convencer-nos que elas sao o bicho papao.
Sem duvida que ha quem ganhe dinheiro a custa disto, mas dai ate fazer uma afirmacao escandalosa de que isto e tudo uma conspiracao para se aproveitarem de Portugal, desculpem la mas isso nao aceito (ate me mostrarem provas concretas que o demonstrem).
A minha analise da situacao e a seguinte:
- na minha opiniao, e normal um pais levar com uma rating ma (ou pior), assim que recorre ao FMI para pedir ajuda. Se recorreu ao FMI, e porque nao consegue credito pelas "vias normais" e tem de ir ao Fundo Monetario Internacional para o fazer;
- em segundo lugar, ja se ouvem por ai boatos e rumores de que os Estados Unidos fizeram isto de proposito para destabilizar o euro (e fazendo-o desvalorizar) quando, por outro lado, tambem ha noticias que dizem que os US e a China
desvalorizam, propositadamente, as suas moedas para manterem os seus mercados competitivos e isso, e
incompativel com o que por ai se diz;
- numa altura muito propicia a teorias de conspiracao, eis que surge o "documentario"
Inside Job, que toda a gente anda a ver e que toma como facto (nota: eu ainda so vi o trailer mas estou muito interessado em ver tambem para poder analisar por mim mesmo embora, para ja, me pareca um "documentario" muito ao estilo do
Michael Moore, sensacionalista e com muita "colagem");
- como se ja nao bastasse, anda por ai um artista a auto-intitular-se um "Economic Hitman", que publicou um livro onde conta a sua historia (em forma de biografia), explicando todos os detalhes das conspiracoes Norte Americanas contra a economia mundial, dizendo que trabalhava para a
National Security Agency. Estranho e que, no meio de tanto secretismo e tendo o gajo lancado uma bomba daquelas ca para fora, ainda ninguem causou um "acidente" para o fazer desaparecer :o). Estranho tambem o facto de que e, aparentemente, o unico "Economic Hitman" (ja que este foi um termo que ele lancou ca para fora no seu livro e mais ninguem em todo o mundo fala sobre isto). Por fim, e tambem interessante ver quao glamoroso o seu mundo era: o gajo e um verdadeiro James Bond! (ou seja, o tal livro e uma ode a si mesmo)...
- e o chocante disto e que
o jornal Publico partilha este video, como se de facto se tratasse. Para quem quiser mais informacoes sobre o personagem,
leiam isto :o).
E impressionante ver como as pessoas se unem todas contra um "mal comum" (tal como Hitler conseguiu unir os Alemaes contra os Judeus): e preciso e alguem a quem culpar!
Fico fascinado como, primeiro foram os bancos, agora as agencias de rating. Admitir responsabildade e "mea maxima culpa" e que nao pode ser! A responsabilidade esta sempre la fora e, pelo que tenho analisado, durante os ultimos, pelo menos, 10 anos, existe uma moda para atribuir essa responsabilidade aos Norte Americanos...
Isto faz-me lembrar uma frase que ouvi uma vez uma ceptica dizer, contra-argumentando sobre aquele mito que diz que "e impossivel que os egipcios tenham conseguido criar as piramides sozinhos, de certeza que teve de haver ajuda alienigena", dizendo "acho que estamos a dar pouco credito a capacidade dos egipcios para fazerem coisas magnificas" (ou, nas minhas palavras, estamos a subestimar o poder de persuacao do chicote ;o)).
Tal como essa frase, eu digo: "estamos a dar pouco credito a nossa propria capacidade de nos enterrarmos em merda".

Eu nao acredito que exista
um grupo elitista que controla toda a economia (e que controla as nossas vidas tipo marionetas). Quanto muito, acredito na fraqueza humana que nos predispoe para corrupcao e ganancia. Nisso sim, eu acredito.
Acredito que existam varias corporacoes gananciosas, que estao mais preocupadas com os seus ganhos do que com o azar alheio (e acho isso perfeitamente normal - desde que nao influencie a liberdade dos outros, acho que qualquer corporacao ou pessoa e livre de agir como bem entender, especialmente porque ha regras no jogo e as pessoas tem de saber as regras antes de jogar), mas sendo a economia algo tao complexo e com TANTAS variaveis "aleatorias", e impossivel alguem controlar isto tudo (conscientemente).
Tambem aceito que digam que o rating da Moody's venha tornar as coisas mais dificeis para o nosso pais mas, sabem que mais? Se o podem fazer e porque nos deixamos.
Ou, melhor explicando, as agencias de rating podem agora influenciar a nossa economia, porque nos fomos pedir dinheiro emprestado. Ninguem nos obrigou a faze-lo: nenhuma agencia e nenhum pais. Fomos nos que fizemos a nossa cama.
Alem do mais, o rating faz parte das regras e nos ja sabiamos (ou deviamos saber) quando pedimos dinheiro emprestado:
- os juros sao dinamicos;

- o mercado financeiro gira, actualmente, a volta do "
Fiat Standard" e isso faz com que a especulacao mexa com tudo - o que pode ser muito bom, ou muito mau (mediante como os OUTROS nos veem e a sua percepcao da nossa capacidade de gerar e gerir dinheiro);
- e nos (ou melhor, quem pediu dinheiro ao FMI), tinha OBRIGACAO de saber as regras do jogo e saber que isto poderia vir a acontecer.
Eu a cada 3 meses recebo uma carta do banco com um ajuste ao meu credito imobiliario e pago e nao bufo. Essas sao as regras e eu sabia delas quando me meti no credito. E claro que preferia um juro fixo ao longo do emprestimo mas...foram as regras que aceitei.
E, tal como com o nosso pais, eu tambem estou sujeito a um rating externo que controla quanto tenho de pagar todos os meses.
Ca nos Estados Unidos, as coisas funcionam um pouco diferente no que toca a credito (pelo menos, penso que e diferente de como funcionam em Portugal - mas posso apenas estar pouco informado).
Aqui temos algo que, por um lado, eu desprezo e, por outro, eu acho fascinante: o credit history (historico de credito)!
A razao pela qual eu nao gosto do credit history e que, para ter credito, somos obrigados a ter credito.
Ou seja, quanto mais creditos temos (e pagamos), melhor se torna o nosso credit score (pontuacao de credito).
O problema e que, para alguem como eu que emigrou para este pais ha menos de 2 anos e que compra tudo a pronto, para as agencias financeiras, eu sou um "risco" porque eles nao tem forma de me avaliar.
Por outro lado, pessoas que tenham um bom credit score / history (por exemplo, pessoas que consumam credito e paguem a tempo e horas), passam a ter um juro super baixo (porque sao catalogadas como pessoas de confianca).
O sistema de rating usado por estas agencias como a Moody's, S&P e Fitch funciona exactamente da mesma forma: elas avaliam a credibilidade das empresas e paises a nivel financeiro, para que quem empresta dinheiro / investe saber se e um negocio arriscado ou nao (ja agora, para os que dizem que isto e tudo uma grande Mafia e que as agencias de rating sao todas Americanas, sabiam que a
Fitch e Francesa? - e, para os que dizem que "tem sede nos Estados Unidos", isso e identico a dizer que eu sou Americano porque vivo aqui...).
Depois ainda temos quem levante a questao do quao faliveis estas empresas de rating sao, ja que nao foram capazes de prever a situacao de empresas como a Fannie Mae, Freddie Mac, Lehman Brothers e outras antes destas falirem. Como e possivel que essas empresas, dias antes de irem a falencia, tinham ratings bons?
A minha explicacao e deveras simples: as agencias de rating avaliaram essas empresas face aos resultados anunciados durante os ultimos anos (que foram, realmente, muito bons) e fizeram um mau trabalho em nao perceberem que esses resultados foram conseguidos gracas a uma situacao insustentavel (e que, a qualquer altura, os seus investimentos tinham de dar asneira).
Na minha opiniao, la por eles terem feito uma ma avaliacao (demasiado optimista) de algumas empresas e nao terem conseguido prever que elas iam ficar em maus lencois, nao quer dizer que o tenham feito com mas intencoes ou por corrupcao. Como se costuma dizer "correlation does not imply causation" - correlação não implica por si só em
causalidade). Significa, sim, que nao lhes devem dar tanta atencao como dao (mas isso aplica-se a qualquer comentador ou economista, ja que pouco mais servem do que a propagacao de teoria).
No entanto, ainda nao vi relatos de nenhuma situacao onde estas agencias tenham dado uma ma rating a algo que afinal estava muito bem. Pelo que acho que devemos ter tambem isso em conta.
Uma das razoes pela qual fico chocado em ver tanta indignacao perante a avaliacao que levamos e o facto de que ja todos estamos fartos de saber que o pais esta na merda. O governo gasta muito mais dinheiro do que tem, o Estado Social esta falido, e toda a gente se queixa de que ha desemprego e pobreza. Acham mesmo que isso sao indicadores de um pais onde vale a pena investir? So se olharmos para a situacao de uma forma muito optimista (talvez tao optimista quanto as avaliacoes que as agencias fizeram as empresas que faliram), onde concluimos que pior nao pode ser ou, e impossivel cair mais fundo.
Sabem o que vos digo sobre isso? "Well,
at least it's not raining" :o).
Para quem ainda nao percebeu isto, deve tambem ficar muito chocado com a nova noticia de hoje:
Moody's coloca CP, Refer, Parpublica e RTP em "lixo".
Yeaps, eu sei. E chocante nao e? Logo agora que todas estas empresas estavam a safar-se tao bem :o).
Como alguem mais atento comentou nessa noticia, "
Se estas empresas continuam a dar prejuízo há anos, não é de admirar que sejam consideradas empresas de alto risco e sem qualquer interesse economico, portanto, lixo. Até eu percebo que nunca investiria um tostão nas ditas" ou ainda "
Então nestas 4 empresas ha pelo menos aí uns 50 mercedes e BMW para os administradores, têm ordenados principescos, planos de reforma milionarios, não me parece que sejam administradores de empresas falidas !!!" ou entao "
sinceramente lixo ? nem as pensam.....quando temos um presidente da republica que abdicou do ordenado de pr para manter duas reformas,somos possivelmente o unico país do mundo com um presidente que não aufere vencimento( mantém só as mordomias inerentes) e classificam de lixo o estado, empresas.....estão doidos só podem....".
Mas isso, para muitos dos meus compatriotas, nao vale ou significa nada, ja que hoje e dia de festa e temos a quem apontar o dedo.
Em suma, eu nao ponho completamente de parte a possibilidade de que ha alguma mafia nisto tudo e que as empresas agem de forma imoral para conseguirem maximizar os seus ganhos. No entanto, tal como eu nao posso garantir a 100% que nao existe conspiracao, NINGUEM neste mundo pode garantir a 100% que EXISTE uma conspiracao global e um super grupo que controla tudo e todos.
E um pouco como a questao dos teistas versus ateus: tal como ninguem pode provar que Deus nao existe, ninguem pode provar que Deus existe.