Tuesday, November 15, 2011

A tragedia Grega

Nao sei se ja repararam mas, cada vez mais se tem visto um sentimento de odio contra os Alemaes.
Dizem as pessoas, aparentemente, informadas e espertas, que os Alemaes sao muito maus e que estao a tentar apoderar-se da Europa, tentando controlar os piquenos!

Ao longo das ultimas semanas, tenho visto um constante zum zum sobre como os Alemaes sao porcos, feios e maus, porque nao querem continuar a suportar os PIIGs.

Dizem as mas linguas (muito informadas e inteligentes), que os Alemaes nao estao a apoiar o espirito de Uniao necessario ao sucesso da Uniao.

O problema e que, com este escalar do odio aos Alemaes e ao seu estilo de vida, comecei a ouvir varias bocas sobre como os Alemaes nunca saldaram as suas dividas da Primeira e Segunda Guerra Mundial, e que o seu estilo de vida so foi possivel gracas a terem escravizado outros povos e por os outros paises da UE serem obrigados a importar bens Alemaes.

Ouvi isto umas 3 ou 4 vezes e ja estava a achar estranho, ja que o discurso se estava a tornar repetitivo e estranhamente consistente.

Ora, e claro que isso tinha uma razao de ser! E que, aparentemente, anda por ai um email a circular que fala do quao maus os Alemaes estao a ser para a Grecia, e de como a Grecia e uma cambada de coitadinhos por causa dos abusos Alemaes.

E o email reza assim:
"Ler até ao fim. Resposta de um grego a um alemão que se sente ofendido com o "estilo de vida" grego.

Carta aberta, publicada na revista STERN, de um cidadão alemão, Walter Wuelleenweber, dirigida a "caros gregos", com um título e sub-título:
Depois da Alemanha ter tido de salvar os bancos, agora tem de salvar também a Grécia
Os gregos, que primeiros fizeram alquimias com o euro, agora, em vez de fazerem economias, fazem greves
"Caros gregos,
Desde 1981 pertencemos à mesma família. Nós, os alemães, contribuímos como ninguém mais para um Fundo comum, com mais de 200 mil milhões de euros, enquanto a Grécia recebeu cerca de 100 mil milhões dessa verba, ou seja a maior parcela per capita de qualquer outro povo da U.E.
Nunca nenhum povo até agora ajudou tanto outro povo e durante tanto tempo.
Vocês são, sinceramente, os amigos mais caros que nós temos. O caso é que não só se enganam a vocês mesmos, como nos enganam a nós.
No essencial, vocês nunca mostraram ser merecedores do nosso Euro. Desde a sua incorporação como moeda da Grécia, nunca conseguiram, até agora, cumprir os critérios de estabilidade. Dentro da U.E., são o povo que mais gasta em bens de consumo.
Vocês descobriram a democracia, por isso devem saber que se governa através da vontade do povo, que é, no fundo, quem tem a responsabilidade. Não digam, por isso, que só os políticos têm a responsabilidade do desastre. Ninguém vos obrigou a durante anos fugir aos impostos, a opor-se a qualquer política coerente para reduzir os gastos públicos e ninguém vos obrigou a eleger os governantes que têm tido e têm.
Os gregos são quem nos mostrou o caminho da Democracia, da Filosofia e dos primeiros conhecimentos da Economia Nacional.
Mas, agora, mostram-nos um caminho errado. E chegaram onde chegaram, não vão mais adiante!!!"

Na semana seguinte, o Stern publicou uma carta aberta de um grego, dirigida a Wuelleenweber:

Caro Walter,
Chamo-me Georgios Psomás. Sou funcionário público e não ?empregado público? como, depreciativamente, como insulto, se referem a nós os meus compatriotas e os teus compatriotas.
O meu salário é de 1.000 euros. Por mês, hem!... não vás pensar que por dia, como te querem fazer crer no teu País. Repara que ganho um número que nem sequer é inferior em 1.000 euros ao teu, que é de vários milhares.
Desde 1981, tens razão, estamos na mesma família. Só que nós vos concedemos, em exclusividade, um montão de privilégios, como serem os principais fornecedores do povo grego de tecnologia, armas, infraestruturas (duas autoestradas e dois aeroportos internacionais), telecomunicações, produtos de consumo, automóveis, etc.. Se me esqueço de alguma coisa, desculpa. Chamo-te a atenção para o facto de sermos, dentro da U.E., os maiores importadores de produtos de consumo que são fabricados nas fábricas alemãs.
A verdade é que não responsabilizamos apenas os nossos políticos pelo desastre da Grécia. Para ele contribuíram muito algumas grandes empresas alemãs, as que pagaram enormes ?comissões? aos nossos políticos para terem contratos, para nos venderem de tudo, e uns quantos submarinos fora de uso, que postos no mar, continuam tombados de costas para o ar.
Sei que ainda não dás crédito ao que te escrevo. Tem paciência, espera, lê toda a carta, e se não conseguir convencer-te, autorizo-te a que me expulses da Eurozona, esse lugar de VERDADE, de PROSPERIDADE, da JUSTIÇA e do CORRECTO.
 Estimado Walter,
Passou mais de meio século desde que a 2ª Guerra Mundial terminou. QUER DIZER MAIS DE 50 ANOS desde a época em que a Alemanha deveria ter saldado as suas obrigações para com a Grécia.
Estas dívidas, QUE SÓ A ALEMANHA até agora resiste a saldar com a Grécia (Bulgária e Roménia cumpriram, ao pagar as indemnizações estipuladas), e que consistem em:
1. Uma dívida de 80 milhões de marcos alemães por indemnizações, que ficou por pagar da 1ª Guerra Mundial;
2. Dívidas por diferenças de clearing, no período entre-guerras, que ascendem hoje a 593.873.000 dólares EUA.
3. Os empréstimos em obrigações que contraíu o III Reich em nome da Grécia, na ocupação alemã, que ascendem a 3,5 mil milhões de dólares durante todo o período de ocupação.
4. As reparações que deve a Alemanha à Grécia, pelas confiscações, perseguições, execuções e destruições de povoados inteiros, estradas, pontes, linhas férreas, portos, produto do III Reich, e que, segundo o determinado pelos tribunais aliados, ascende a 7,1 mil milhões de dólares, dos quais a Grécia não viu sequer uma nota.
5. As imensuráveis reparações da Alemanha pela morte de 1.125.960 gregos (38,960 executados, 12 mil mortos como dano colateral, 70 mil mortos em combate, 105 mil mortos em campos de concentração na Alemanha, 600 mil mortos de fome, etc., et.).
6. A tremenda e imensurável ofensa moral provocada ao povo grego e aos ideais humanísticos da cultura grega.
Amigo Walter, sei que não te deve agradar nada o que escrevo. Lamento-o.
Mas mais me magoa o que a Alemanha quer fazer comigo e com os meus compatriotas.
Amigo Walter: na Grécia laboram 130 empresas alemãs, entre as quais se incluem todos os colossos da indústria do teu País, as que têm lucros anuais de 6,5 mil milhões de euros. Muito em breve, se as coisas continuarem assim, não poderei comprar mais produtos alemães porque cada vez tenho menos dinheiro. Eu e os meus compatriotas crescemos sempre com privações, vamos aguentar, não tenhas problema. Podemos viver sem BMW, sem Mercedes, sem Opel, sem Skoda. Deixaremos de comprar produtos do Lidl, do Praktiker, da IKEA.
Mas vocês, Walter, como se vão arranjar com os desempregados que esta situação criará, que por ai os vai obrigar a baixar o seu nível de vida, Perder os seus carros de luxo, as suas férias no estrangeiro, as suas excursões sexuais à Tailândia? Vocês (alemães, suecos, holandeses, e restantes ?compatriotas? da Eurozona) pretendem que saíamos da Europa, da Eurozona e não sei mais de onde.
Creio firmemente que devemos fazê-lo, para nos salvarmos de uma União que é um bando de especuladores financeiros, uma equipa em que jogamos se consumirmos os produtos que vocês oferecem: empréstimos, bens industriais, bens de consumo, obras faraónicas, etc.
E, finalmente, Walter, devemos ?acertar? um outro ponto importante, já que vocês também disso são devedores da Grécia:
EXIGIMOS QUE NOS DEVOLVAM A CIVILIZAÇÃO QUE NOS ROUBARAM!!!
Queremos de volta à Grécia as imortais obras dos nosos antepassados, que estão guardadas nos museus de Berlim, de Munique, de Paris, de Roma e de Londres.
E EXIJO QUE SEJA AGORA!! Já que posso morrer de fome, quero morrer ao lado das obras dos meus antepassados.
Cordialmente,
 Georgios Psomás"

E esta tudo dito! Nao e verdade?

Ora, fora as inconsistencias obvias deste email, como o facto do Ikea ser Sueco e nao Alemao, isto ate parece ser uma daquelas tipicas respostas onde "o gajo calou o outro".

Mas, como eu nao sabia pormenores do que se passou com a Alemanha apos a Segunda Guerra Mundial, e quanto e que eles realmente pagaram (ou deixaram de pagar) em retribuicoes, decidi fazer uma pequena pesquisa.

Como ja esperava, encontrei dados muito interessantes que desmentem o que este email parvo diz.

Encontrei entao estes artigos deveras interessantes:
"Does Germany Owe Greece $95 Billion from WWII", "War Reparations" e "How much reparation did Germany have to give the Allies in particular England France and the US at the end of World War 2?"

Onde descobri coisas como:
"The suffering caused to Greece by the Nazis is undeniable. Yet at the same time, human suffering cannot really be measured. Independent historians unanimously agree that the total economically measurable damages suffered by Greece as a result of the German occupation, in both absolute numbers as well as proportionate to the population, put Greece in fourth place after Poland, the Soviet Union and Yugoslavia.

At the Paris Conference on Reparations, Greece was finally accorded 4.5% in material German reparation and 2.7% in other forms of reparations. Practically, this meant that Greece received mainly material goods — like machines made in West Germany — worth approximately $25 million, which in today's money amounts to as much as $2.7 billion.

That is why under the terms of the 1953 London Debt Agreement, reparation payments were put off until a peace treaty was signed. That finally happened in 1990, which didn't require Germany to pay further reparations to other countries like Greece.
Greece accepted the treaty, though clearly it had little choice. After decades of partnership with Germany (Greece has been a member of NATO since 1952 and associated with European organizations since 1961), it would have been politically difficult to demand huge reparations — although the issue of compensation was periodically raised by Greek politicians, mostly to score points in domestic politics.

And yet payments were made over the years — at different times and from different pots — including as much as $41 billion since 1949, although given the variety of agreements that were reached, it's impossible to say with certainty.
Independent from all other claims, the Federal Republic of Germany did pay compensation to individual victims of Nazi crimes. On March 18, 1960, an agreement was signed between Greece and West Germany to the effect that Germany would pay 115 million deutsche marks to Greek victims of the Nazi occupation. The agreement was made under the stipulation that no further claims for individual damages would be accepted.


However, claims from the descendants of Greek victims continued to be made. The best-known case was made by children of the residents of a village called Distomo who were killed on June 10, 1944, in what the Germans called a "retaliatory strike." In 1997, they received a verdict that they were entitled to €37.5 million in damages from Germany. After much legal wrangling, the case is now before the International Court of Justice in the Hague.
Another legal issue that has surfaced concerns the 476 million reichsmarks lent against its will to Germany by the Greek National Bank during the war. If this were to be considered a form of war damage, then in principle it would be subject to reparation — except that according to the 1990 treaty, Germany would not have to pay it. If the money were, however, to be considered a normal credit, then Greece would be entitled to get the money back."

Ora bem, esta claro que quem ler isto se vai focar no facto de que a Grecia aceitou que a Alemanha ficasse com a sua divida saldada porque nao teve escolha. Mas, na realidade, a leitura nao deve ser essa.
A leitura justa e que os Gregos foram postos numa situacao onde era beneficial para eles esquecer essa divida. E, mesmo que nao tenha sido beneficial, o problema e DELES que aceitaram essas condicoes.

E claro que tambem nao e justo ler apenas isso, ja que, como o artigo aponta, eles pagaram $41 bilioes a Grecia desde 1949.

Mas, nao fiquemos por aqui, e continuemos a analisar a situacao do pos-guerra:
"The question is complicated. To the best of my knowledge the Allies never counted the value of the things they took out of Germany, but they considered it "reparations" nevertheless. They also forbade the Germans from counting.

The Russians took much equipment, telephone switchboards, factories etc. Some of this was sent to them from Western Germany by the U.S. The Russians also used millions of German civilians and former soldiers as slave labor well into the 1950's.

The Russians also took a quarter of Germany and divided it between Russia and Poland, after ethnically cleansing its inhabitants. This was done in accordance with agreements with the U.S. and UK so should count as some sort of "reparations" deal that the U.S. and UK too were responsible for.
...
There were no reparations in money from Germany to the western allies after WWII. The reason is simply that Germany had no financial resources with which to pay. The country was ruined, bankrupted, wrecked, and occupied.
In the east it was another matter. In additional to mass rape, murder, and incarceration of common soldiers the Soviet forces looted the country of anything they could steal. Since Germany had little money to steal, the Soviets stole trains, art, automobiles, furniture, plumbing fixtures, bathtubs, jewelry, and power plants. They broke into private homes and looted all the possessions of the inhabitants. Any who resisted were murdered on the spot. Museums in Russia still contain vast amounts of the stolen art, as they do additional stolen art from their Spanish campaign, just prior to WWII. 
...the French took 'reparations' in the form of slave labor. Thousand of German POWs were forced to work in French coal mines where about 5,000 died. Many German troops, who would have starved otherwise, 'joined' the French army and fought in that countries Vietnam war. "
Ora, parece-me a mim que os Alemaes foram escravizados apos a Segunda Guerra Mundial, e as "obras de arte preciosas" dos Gregos estao agora espalhadas pela Europa.

Como um dos comentarios num dos artigos dizia:
"It sounds like Greece has developed the stereotypical view of most welfare recipients: they can't take care of themselves and they refuse to accept responsibility for their own mistakes so they start pointing their fingers at someone else and threatening lawsuits.  Whatever claim they may have had to reparations died when they signed that treaty in 1990."
E claro que agora se esta tudo a virar contra a Alemanha, nos mesmos estamos a fazer o mesmo (tal como fizemos contra o FMI e contra os Estados Unidos, e como faremos contra quem vier no futuro!).
E que e TAOOOO mais simples apontar o dedo aos outros do que tentar perceber onde falhamos, tomar responsabilidade, e corrigir os problemas.

Isto e tal e qual como Portugal e o FMI que, segundo os iluminados dizem, veio para se aproveitar de nos Portugueses. Alias, veio aproveitar-se tanto de nos que ate ja descobriu buracos colossais na Madeira e no Continente. E esta tudo muito bem, afinal, e sempre boa politica matar o mensageiro!

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